“Dr. Matheus, meu Diabetes é tipo 1 ou tipo 2?”
Essa é uma pergunta frequente que os pacientes me fazem no consultório. Nesse contexto, saber diferenciar e reconhecer a classificação correta do diabetes é importante para estabelecer um tratamento adequado ao paciente e, com isso, evitar complicações dessa doença.
O Diabetes é uma condição muito prevalente em nossa sociedade, sendo o Brasil um dos países com maior surgimento de novos casos. A doença surge por uma desregulação na metabolização dos níveis de glicose no sangue, seja por uma deficiência absoluta ou relativa de insulina. Tem origem multifatorial (estilo de vida, genética, exposição a fatores ambientais) e pode levar a complicações agudas e crônicas, que são evitáveis mediante diagnóstico precoce e tratamento adequado.
O tipo de Diabetes mais frequente é o que chamamos de “tipo 2”. Por muito tempo, acreditou-se que sua origem se resumia à resistência insulínica; de fato, esse é um dos fatores que podem levar ao surgimento do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). Contudo, ao longo do tempo, estudos para entender os motivos pelos quais essa doença surge revelaram que existem outros fatores que contribuem para o desenvolvimento do DM2. Dentre eles, podemos citar a captação reduzida de glicose pelo músculo, a reabsorção aumentada de glicose a nível renal, a produção aumentada de glicose pelo fígado, entre outros.
Inicialmente, pacientes com DM2 podem fazer uso de medicações orais; porém, em situações em que há sinais de deficiência de insulina (perda de peso acentuada, aumento da fome, da urina e da sede, além de níveis de glicemia muito elevados), pode ser necessário o uso de insulina, seja somente com insulina lenta (NPH, Glargina, Degludeca, Detemir) ou em associação com insulina rápida (Lispro, Aspart, Glulisina), ou mesmo numa combinação de insulina lenta com análogos de GLP-1 (Degludeca com Liraglutida – XULTOPHY ou Glargina com Lixisenatida – SOLIQUA).
Além disso, alguns pacientes podem evoluir ao longo do tempo para a necessidade de insulina. Isso acontece porque inicialmente ocorre um aumento na produção de insulina pelo pâncreas, até que pode haver uma redução relativa desse hormônio e, posteriormente, falência na sua produção. Felizmente, o diagnóstico precoce e o tratamento assertivo podem evitar essa evolução.
Quanto ao Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1), sabemos que sua origem é autoimune. Isso significa que, em algum momento, por uma desregulação no sistema imunológico, ocorre a produção de anticorpos que atacam e destroem as células beta no pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Assim, o paciente evolui com necessidade imediata de insulina exógena, tendo em vista que há risco de vida caso não seja tratado de maneira adequada e precoce. Geralmente, acomete crianças e adolescentes, podendo surgir após uma infecção ou mesmo sem qualquer fator desencadeante.
Na fase inicial do DM1, os pacientes podem apresentar um período chamado “lua-de-mel”, que consiste em uma produção residual de insulina pelas poucas células beta que ainda restam. Contudo, esse período é autolimitado e, com o passar do tempo, o paciente evolui para a morte completa das células produtoras de insulina, necessitando de maiores doses desse medicamento.
Felizmente, hoje contamos com uma infinidade de medicamentos para o tratamento do Diabetes Mellitus, seja ele tipo 1 ou tipo 2. Insulinas análogas permitem um melhor controle glicêmico com baixo risco de hipoglicemias, e medicações orais que não apenas controlam a glicemia, mas que também podem promover a perda de peso e proteger contra eventos cardiovasculares, como derrame e infarto.
Portanto, o diagnóstico correto, associado ao tratamento precoce, individualizado e ao seguimento regular com o médico endocrinologista, permite que o paciente com diabetes tenha qualidade de vida. Isso é fundamental não só para o controle da glicemia, mas principalmente para evitar as inúmeras complicações que essa doença pode gerar. E o mais importante: é possível viver bem com o Diabetes Mellitus!
Referências bibliográficas:
Rodacki M, Teles M, Gabbay M, Montenegro R, Bertoluci M, Rodrigo Lamounier. Classificação do diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023). DOI: 10.29327/557753.2022-1, ISBN: 978-85-5722-906-8.
Melanie Rodacki, et al. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). DOI: 10.29327/5412848.2024-1, ISBN: 978-65-272-0704-7.



